das meditações
01
Eu tentei falar. Tentei não falar. Os fatos se enroscam por vezes como uma serpente no centro do meu peito. Eu me sinto esgotado. Não se pode continuar mas se continua. Assim como um carro que queimou todo combustível e corre agora no gás de tudo que consumiu. A força do fogo ainda move, a força liberada pelo dispêndio. Me sinto atordoado pelos meus próprios sentimentos, enganado pelo meu próprio corpo. Talvez seja essa minha maior dificuldade, como somos enganados pelos nossos corpos. Como acreditamos que sabemos ler seus sinais mas ainda assim confundimos o errado pelo certo, o perigo pela paixão; confundimos o que precisamos com o que queremos. É necessário poder confiar no corpo. Mais necessário ainda duvidar. Não se deixar levar por primeiras respostas ou ideias. Não viver apenas na superfície do conhecimento do corpo, lembrar que a todo tempo as coisas se movem em todos os lugares, o tempo inteiro o jogo está mudando. As regras são manipuladas pela maré, o corpo responde aos novos ambientes e regras antes de nós.
Não sabemos ler o que nosso corpo sabe, tateamos para descobrir. Nesses momentos não somos muito diferentes dos bebês, eles ainda tem mais coragem. Sabem se jogar no que desejam porque ainda não aprenderam a ter medo, ainda não foram impressionados com a ideia de saber e a vida é muito mais livre antes do conhecimento. Quando não temos registros de outros acontecimentos, tudo é novidade, tudo é excitante. No início os limites costumam ser nosso norte. É o que buscamos. Estamos tentando saber da terra em que pisamos, até onde vai, o que aguenta, do que é feita… São muitas perguntas que nos direcionam aos limites e plantar-se ali até que um saber começa tomar corpo.
Viver ao lado do limite, testar o limite. Isso deixa marcas. E por vezes as marcas demoram a aparecer, o corpo guarda a força do impacto para que possamos seguir, porque por vezes não se pode mais seguir e seguimos. O corpo é aquilo nos propela pra frente quando guarda estas dores e as queima para que possamos tomar vizinhança do limite. E então as marcas aparecem, o corpo as libera, algo rompe. O tempo agora parece um pouco mais espesso, como no verão. Mas não carrega nenhum hedonismo dessa vez, o corpo reconhece o tempo. Se assenta no tempo e toma forma e nos vemos mais longe daquela beira, um abraço, não, uma contração na caixa torácica.
A sensação de Medo, excitante: Belo.
